Euripides Meets Brazil’s Military Dictatorship in Núcleo Experimental’s AS TROIANAS (The Trojan Women)
by Claudio Erlichman. The production runs from August 18th through October 07th, at Teatro do Nucleo Experimental.
São Paulo - Brazil — Núcleo Experimental will celebrate its 20th anniversary by revisiting As Troianas (The Trojan Women), one of the company’s most acclaimed productions. Originally staged in 2009, the production received nominations for the Shell, Cooperativa Paulista de Teatro and Quem awards and enjoyed several sold-out seasons. The new staging premieres August 18 at Teatro do Núcleo Experimental, in São Paulo’s Barra Funda neighborhood, and runs through October 7, with performances Tuesdays and Wednesdays at 8 p.m. Directed and adapted by Zé Henrique de Paula, with musical direction, compositions and arrangements by Fernanda Maia, the production features Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito and Victor Edwards.

Written by Euripides in Athens in 415 BC, The Trojan Women follows Hecuba, Andromache, Cassandra and the other women of Troy after the city’s destruction, as they face enslavement, exile, the loss of their homes and separation from their children. Written shortly after the Athenian attack on Melos, the tragedy has long been understood as a political reflection on war, violence and the suffering of civilians. The new production brings that perspective into Brazilian history, setting the action in 1972 at the Torre das Donzelas, the women’s wing of São Paulo’s Tiradentes Prison, where women imprisoned for political reasons were held during the military dictatorship.
Inspired by Luiza Villaméa’s book A Torre: O Cotidiano de Mulheres Encarceradas Pela Ditadura, the production draws parallels between the Trojan women and Brazilian political prisoners, whose bodies, voices and identities were targeted by an authoritarian regime. The connection is particularly powerful because the women imprisoned at the Torre das Donzelas actually organized and staged a play inside the prison. For them, theater became an act of survival and resistance — a way of preserving identity, solidarity and humanity in the face of repression. In the new The Trojan Women, the Greek chorus is transformed into the collective voice of these imprisoned women.
Music is central to the production, with Fernanda Maia’s score drawing on Brazilian and Latin American protest traditions, including the Nueva Canción Latinoamericana and Brazilian popular music created during the country’s “Years of Lead.” The women’s songs become a form of testimony, preserving memories of families, homes and lives interrupted by political violence while expressing grief, indignation and hope. By connecting Euripides’ ancient tragedy to one of the darkest chapters of Brazil’s recent history, Núcleo Experimental turns The Trojan Women into both a classical tragedy and an act of remembrance — reaffirming theater and music as powerful spaces for resistance, memory and giving voice to women whose stories have been silenced.
set against the backdrop of Brazil’s military dictatorship.
photo by Anne Beatriz.
Para celebrar seus 20 anos de trajetória, o Núcleo Experimental revisita As Troianas, um de seus espetáculos mais aclamados
Com direção de Zé Henrique de Paula e direção musical de Fernanda Maia, montagem indicada a importantes prêmios transpõe a tragédia de Eurípides para a Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes, durante a ditadura militar brasileira
A nova montagem estreia em 18 de agosto, na sede do grupo, na Barra Funda, em São Paulo, onde permanece em cartaz até 7 de outubro, com sessões às terças e quartas-feiras, às 20h
Apresentada originalmente em 2009, As Troianas recebeu indicações aos prêmios Shell, Cooperativa Paulista de Teatro e Quem em diversas categorias e teve várias temporadas com sessões lotadas. Para a nova montagem, a companhia reúne novamente o diretor e adaptador Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia, responsável pela direção musical, composição e arranjos. O elenco reúne Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards.
Escrita por Eurípides em Atenas, em 415 a.C., As Troianas se passa após a destruição de Tróia. Hécuba, Andrômaca, Cassandra e as demais mulheres sobreviventes aguardam seu destino como prisioneiras dos gregos vencedores, enfrentando a escravidão, o exílio, a perda de seus lares e a separação de seus filhos. A tragédia foi escrita pouco depois do ataque ateniense a Melos, quando a maior parte dos homens adultos da ilha foi morta e mulheres e crianças foram escravizadas. Por isso, ao longo dos séculos, a peça passou a ser interpretada não apenas como uma obra sobre as consequências da guerra, mas também como uma poderosa declaração política sobre a violência praticada pelos vencedores e o sofrimento das populações civis. A montagem do Núcleo Experimental aprofunda essa dimensão política ao transportar a tragédia para um dos capítulos mais sombrios da história recente do Brasil.
De Tróia à Torre das Donzelas
Enquanto a montagem de 2009 transferia a ação para um campo de concentração na Polônia, às vésperas do fim da Segunda Guerra Mundial, a nova versão é ambientada em 1972, na Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde mulheres presas por motivos políticos eram mantidas durante a ditadura militar brasileira. O cenário estabelece uma conexão direta entre as mulheres de Tróia e as brasileiras que foram presas e torturadas por sua atuação política. Após o golpe militar de 1964 e a implementação do Ato Institucional nº 5, em 1968, o Brasil entrou em seu período mais repressivo sob o regime militar. A oposição política foi brutalmente reprimida, com prisão, tortura e desaparecimentos utilizados como instrumentos de controle do Estado. O Presídio Tiradentes, localizado na Avenida Tiradentes, em São Paulo, tornou-se um centro de detenção para presos políticos que sobreviviam às torturas praticadas nas instalações do DOPS e do DOI-CODI. No centro do complexo ficava a torre que abrigava as presas políticas e que passou a ser conhecida como Torre das Donzelas.
Inspirado no livro A Torre: O Cotidiano de Mulheres Encarceradas Pela Ditadura, da jornalista Luiza Villaméa, o espetáculo insere a tragédia de Eurípides nesse contexto histórico, explorando a experiência de mulheres cujos corpos, vozes e identidades foram alvo do poder autoritário. Os paralelos entre os dois universos são marcantes. Na tragédia de Eurípides, as mulheres de Tróia tornam-se espólio de guerra, privadas de seus lares, de seus direitos políticos e do controle sobre o próprio futuro. No Brasil, as presas políticas foram submetidas a um sistema de repressão que buscava controlar não apenas suas atividades políticas, mas também seus corpos e suas identidades pessoais. As mulheres detidas eram frequentemente submetidas a formas de humilhação e tortura específicas de gênero, incluindo violência sexual, abusos misóginos e ameaças contra seus filhos. A repressão tentava transformar a resistência política em uma suposta transgressão moral.
as part of its 20th-anniversary celebrations.
photo by Anne Beatriz.
O teatro como resistência
A conexão entre as duas histórias vai além do universo ficcional da peça. As mulheres encarceradas na Torre das Donzelas chegaram de fato a organizar e encenar uma peça de teatro dentro do presídio. Sob um regime criado para silenciá-las, o teatro tornou-se um ato de sobrevivência coletiva — uma maneira de preservar suas identidades, seus vínculos e seu senso de humanidade. É esse gesto que o Núcleo Experimental procura recuperar.
Ao levar As Troianas para dentro da Torre das Donzelas, a montagem coloca o próprio teatro no centro de sua reflexão política. O ato de encenar transforma-se em um ato de resistência contra o desaparecimento e o apagamento histórico. O coro, elemento fundamental da tragédia grega, ganha um novo significado nesse contexto. Em vez de representar os cidadãos da antiga Tróia, passa a ser a voz coletiva das mulheres encarceradas.
Música como memória e resistência
A música ocupa um papel central nessa nova interpretação. As composições e os arranjos de Fernanda Maia dialogam com as tradições brasileiras e latino-americanas da canção de protesto, incluindo a Nueva Canción Latinoamericana, cujos artistas transformaram a música em veículo de expressão política durante períodos de censura e autoritarismo. A trilha também incorpora referências à música popular brasileira produzida durante os chamados “anos de chumbo”, estabelecendo um diálogo musical entre diferentes gerações de artistas que compreenderam a música como instrumento de preservação da memória, expressão da resistência e construção de uma identidade coletiva.
As mulheres do coro cantam não apenas para acompanhar a ação, mas para lembrar. Suas vozes carregam memórias de famílias, casas e vidas interrompidas pela violência política. As canções transitam entre a delicadeza e a indignação, o luto e a esperança, transformando o coro em uma comunidade que se recusa a desaparecer. “Mais do que ilustrar a ação dramática, a música funciona como testemunho”, explica Fernanda Maia em sua descrição da trilha. “Ela dá voz às ausências, às perdas e aos sonhos interrompidos, mas também à capacidade das mulheres de se reconstruírem diante da violência do Estado”. Para o Núcleo Experimental, o resultado é, ao mesmo tempo, uma tragédia grega e um acerto de contas com a história.
resistance for women deprived of their freedom.
photo by Anne Beatriz.
Uma tragédia clássica, uma memória brasileira
Mais de 2.400 anos depois de Eurípides escrever As Troianas, as questões levantadas pela peça permanecem dolorosamente atuais: o que acontece com aqueles que perdem uma guerra? Quem controla a narrativa da violência? O que acontece quando as vozes das mulheres são silenciadas? E como a arte pode preservar histórias que aqueles que detêm o poder prefeririam apagar? Ao colocar as mulheres de Tróia em diálogo com as presas políticas da Torre das Donzelas, o Núcleo Experimental estabelece uma ponte entre dois momentos históricos distantes, mas conectados pela violência, pelo deslocamento, pelo controle dos corpos e pela luta para preservar a dignidade humana.
Ao mesmo tempo, a produção homenageia as mulheres que transformaram o teatro em um ato de sobrevivência enquanto estavam encarceradas durante a ditadura brasileira. Para uma companhia que celebra duas décadas de trajetória teatral, o retorno de As Troianas é, portanto, mais do que uma remontagem. É a oportunidade de revisitar um espetáculo cujos temas centrais — memória, resistência, voz feminina e o poder político da arte — continuam reverberando no presente.
prisoners held at São Paulo’s Torre das Donzelas
during the military dictatorship.
photo by Anne Beatriz.
Ficha Técnica
Elenco: Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards
Adaptação e direção: Zé Henrique de Paula
Direção musical, composição (letras e música) e arranjos: Fernanda Maia
Direção de movimento: Gabriel Malo
Assistência de direção: Anne Beatriz e Davi Tápias
Cenografia e figurinos: Zé Henrique de Paula
Assistência de figurinos: Ana Beatriz Trucharte
Desenho de luz: Fran Barros
Desenho de som: João Baracho
Preparação vocal: Rafa Miranda
Produção: Rebeca Reis
Design gráfico: Laerte Késsimos
Foto e vídeo: Pedro Veras (A Casa que Fala)
Redes sociais: 1812 Comunicação
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Realização: Núcleo Experimental - 20 anos
Estagiários: Anne Beatriz e Giovana Sassi (direção), Lilian Pessoa e Vitória Martin (cenário e figurino), Juju Bac ( som / produção), Eduardo Santos (produção), Fernanda Franca( Produção), Rafael Castro (som), Joaquim Ornelas (iluminação), Mafe Wagapoff (iluminação)
Serviço
As Troianas
Temporada: 18 de agosto a 7 de outubro de 2026*
Às terças e quartas-feiras, às 20h
*Todas as sessões serão seguidas por um bate-papo com elenco
Teatro do Núcleo Experimental - Rua Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo
Ingressos: R$40 (inteira) e R$20 (meia-entrada)
Venda online via Sympla
Classificação: 12 anos
Duração: 90 minutos
Capacidade: 65 lugares